| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |
| 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
| 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 |
| 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 |
| 29 | 30 | 31 |
Pessoal, saiu nossa primeira crítica...
SÃO PAULO - Houve uma época –até fins da década de 1950 para os primeiros anos dos 1960 – que se importava autores estrangeiros em tal quantidade que foi baixada uma lei –ou portaria, não importa – que obrigava as companhias de teatro a “para cada três montagens, uma devia, obrigatoriamente, ser de texto brasileiro”.
Foi um Deus nos acuda, já que autor nosso era veneno de bilheteria, situação que começou a ser revertida com o êxito de Gianfrancesco Guarnieri com seu formidável e hoje antológico Eles Não Usam Black-tie, no Teatro de Arena de São Paulo.
Mas, o Arena ainda era um movimento isolado e, no Rio de Janeiro, Nelson Rodrigues apregoava que não escrevia para multidões: “o teatro ideal seria aquele em que não houvesse ninguém na platéia”. Então, num primeiro momento uma cia. paulista não fez por menos: estreou uma peça infantil nacional... num sábado à meia-noite! Cumpriu-se a lei, do jeitinho brasileiro.
Hoje em dia, o processo está totalmente revertido: é tanta gente, entre nós, escrevendo para o palco, montando e dirigindo seus próprios textos, que o produtor que decida montar um “estrangeiro” contemporâneo de sucesso, logo recebe a pecha de mercantilista ou “profanador do templo”.
O tempo se encarregará (espera-se) de botar um pouco de equilíbrio nessa onda – meritória, mas exagerada – nacionalista, para alívio do público em geral, aquele de fora dos guetos alternativos.
Isso para dizer que são muito bem-vindos os ingleses desta temporada: A Festa de Abigaiu, de Mike Leigh, atual cartaz do Teatro Cultura Inglesa de Pinheiros; O Campo, de Martin Crimp (restrito por ora ao festival realizado pela mesma entidade, com ingleses contemporâneos); e agora, em temporada normal, no Teatro Augusta, Closer, este desconcertante estudo das relações sexuais (confundidas, desde as novelas das oito da Globo, como amorosas), que o autor, Patrick Marber, desenrola em hora e meia de muito cinismo e alguma compaixão.
O Manifesto, de Brian Clark, é bom lembrar, abriu , no primeiro semestre, com brilhantes atuações de Eva Wilma e Othon Bastos, esse pequeno, mas compacto, compêndio sobre o naufrágio das relações humanas entre homens e mulheres na intimidade, objeto dos quatro textos ora em questão.
Closer, nesta bem apanhada visão de Florência Gil (pouco diferente da original da Mostra do diretor Luiz Arthur Nunes, estranhamente mencionado no programa da peça entre os agradecimentos) mantém no palco toda a contundência dos diálogos e das ações impensadas desse quarteto de figuras que se basta numa tortuosa e enganosa busca da verdade, para justificar sua debilidade racional diante dos apelos do sexo.
Não há preocupação de ordem moral na exposição do autor. E o silêncio da platéia, na faixa dos 30 a maioria, espelha o sufoco, o impasse e a melancólica trajetória em que mergulhou uma geração que negou compromissos milenares de convivência entre os sexos, deixando no lugar apenas um vazio afetivo, que assusta!
Mas, voltando ao espetáculo: é prazeroso constatar o amadurecimento da atriz Rachel Ripani, uma “Alice” de pulsante entrega emocional e física (é corajosa sua cena de “stripper”), como também o crescimento artístico de Daniel Faleiros, numa composição psicológica coesa, de angustiante irresponsabilidade existencial do seu personagem.
Joca Andreazza, de respeitável currículo, divide generosamente com seus parceiros todo o seu domínio cênico, num desempenho irrepreensível. Substituindo Ângela Dip (ótima, no original) Amazyles de Almeida enfrenta com muita garra uma certa esquizofrenia da personagem, saindo-se à altura dos demais.
Closer é para se ver com a respiração suspensa. Principalmente se você está na casa dos trinta!